Há dias excelentes, memoráveis. Há também os menos bons. Os marcantes. Os decisivos. Este espaço é, apenas, um conjunto de desabafos fruto dos dias que vou percorrendo e da minha (in)sanidade mental. E, tal como eu... tem dias!

Sábado, 06 de Fevereiro, 2010

Na juventude e adolescência - basicamente quando começamos a acordar para este tipo de consciência - a minha geração foi apelidada de rasca. (Nem vou debruçar-me sobre este termo, por agora). Foi numa altura em que os estudantes - esses infames que só sabem reclamar! - íam para a rua reclamar da PGA, da estratégia escolhida para financiamento das universidades (não, não era contra o pagamento das propinas. Pena é que fosse essa a mensagem - é um pouco como agora, e, creio, será sempre: calam-se alguns jornalistas e diz-se aos outros o que escrever. Já na altura a história era mesma, recorrendo a outros meios: vai-se buscar quem vai para as manifestações só porque sim, porque assim não se vai às aulas e bebem-se uns copos... Quando agora, estes anos depois, vejo alguns professores e outras pessoas do meio insurgirem-se contra a lei do financiamento (chegou agora a vez deles)... acho, no mínimo, curioso. Na altura, se se tivessem unido aos que os estudantes defendiam, talvez hoje, a história nas nossas universidades fosse outra - lembram-se daquele meu post de há poucos dias sobre o "mudar ou não o mundo?" É... sempre fui meia-doida. Mas adiante que o objectivo deste post é outro. (*)

Ao ler um artigo numa revista dita "feminina" descubro que há, agora, uma nova definição para a geração a que pertenço (ah e que também já faço parte de uma grande geração: os que têm entre 25 e 45). Agora chamam-nos Speedies.

Diz o tal artigo que desde muito novos tivemos «a responsabilidade de termos a chave de casa e que passávamos horas sozinhos à frente da televisão e que por isso somos mais independentes e auto-confiantes» - ele há dias em que vem alguém dizer mal, outros bem das crianças crescerem à frente da televisão. Esqueceram-se de dizer que brincávamos muito na rua (infelizmente eu não, porque na rua movimentada da capital onde morava a frequência era muito má e tinha ordens dos meus pais para não brincar na rua - sempre cumpri!).
Depois também escreve que «assistimos a grande revoluções tecnológicas do ZX Sprectrum 48 K até aos laptops de hoje dia, rádios portáteis a ipod, telefones, telemóveis, internet, etc. Assim como fim da guerra fria e do muro de berlim, das mercearias, do aparecimento dos super e hipermercados, das redes sociais. Assistimos ao disparo do número de divórcios e que crescemos em novos modelos familiares. (...)».
Diz que os Speedies «frequentam meios urbanos, gostam de viajar pelas principais capitais mundiais, têm visão global, são independentes, revelam autoconfiança, são empreendedores, impacientes e individualistas. Customizam a própria existência, são flexíveis. Necessitam de constantes estímulos. Buscam constantemente um significado. São descontraídos, descomplexados. Multifacetados. Adeptos, quase compulsivos de tecnologia. Valorizam o prazer. Exigem resultados a curto prazo. Fazem poucos planos a longo prazo. São amigos do ambiente.». Basicamento somos Fast em tudo, desde o trabalho às relações pessoais, passando pela comida. (Algo que a GALP, ou os seus criativos deve apreciar).

Até posso concordar com algumas das características. Mas, acima de tudo, tenho sempre um enorme problema com rótulos, porque são, em primeiro lugar, demasiado castradores. E, depois, há toda aquela ironia - já muitas vezes recordada: "tenham atenção ao que chamam as jovens de agora porque, não tarda, serão eles a mandar na sociedade. Vejam bem o que querem para o vosso futuro". Aqui há uns anos éramos os "rasca" porque não tínhamos lutado pelo 25 de abril, não sabíamos apreciar a liberdade, só sabíamos reclamar que não queríamos estudar nem pagar as propinas. Hoje, como alguns estão a chegar a cargos de liderança, já não somos assim tão rasca. Gostamos de viver com intensidade, sempre em mudança...
Esqueceram-se também de referir que esta geração rasca emigrou (uma boa parte), alguns já doutorados outros licenciados, para países com outro tipo de perspectivas - e os rascas somos nós!!! - logo, o país terá assistido a um outro género de emigração.

Creio que no meio disto tudo tenho de conformar-me. É que daqui a uns tempos irão esquecer esta geração (virá outra), como agora querem fazer com os nossos pais. Porque o que interessa são as que têm o poder económico ou outro... essas são as gerações que interessa "dar graxa" e afins. Tenham dó!

For the record, sinto-me, verdadeiramente privilegiada por pertencer à minha geração. Por ter assistido a tantas transições (tecnológicas e não só) e gostaria de nunca perder este comboio - sabendo que é impossível... Acima de tudo, pelas possibilidades que temos pela frente. Caramba, nós fomos as cobaias dos primeiros jogos de computadores! No nosso tempo não havia cintos-de-segurança atrás! Ainda havia camada do ozono... (poderia estar aqui um dia inteirinho)

[Nota: post escrito após ter lido o artigo «Fast living, Fast eating, fast loving» na revista "Happy" edição de Fevereiro e as citações do mesmo estão devidamente identificadas com as aspas « ».]

(*) Há também os que pertencendo à minha geração sempre foram mais comodistas. Ninguém está certo nem errado. Mas, não sabiam (nem queriam) saber do que se passava. E sim, também achavam que os outros se queixavam era do pagamento das propinas. Alguns desses são hoje professores nas universidades. Sendo que a questão do financiamento chega agora aos professores... agora pode ser que tenham uma ideia do que alguns de nós falávamos na altura. Then again, já passaram alguns anos. Já comeram muito queijo. São capazes de não se lembrar...

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publicado por K às 07:45

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